Para americano ver

Desculpem o trocadilho do título, mas é que a notícia me deixou profundamente indignado. A Federação Nacional dos Cegos dos Estados Unidos está organizando protestos contra o filme Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, baseado na obra homônima de José Saramago. "O filme mostra os cegos como monstros e eu acho que isso é uma mentira", disse Marc Maurer, presidente da Federação. Segundo a associação, o filme firma estereótipos falsos, como que os cegos não conseguem cuidar de si mesmos e estão sempre desorientados. "Nós temos uma taxa de desemprego de 70% e outros tipos de problemas sociais porque as pessoas acham que nós não podemos fazer as coisas, e o filme não vai ajudar o nosso caso", disse Christopher Danielsen, um porta-voz da organização*.

Descontada a minha veneração por Saramago e toda a sua obra, em especial essa, que eu ainda acho ser seu melhor livro, e minha recém-adquirida admiração pelo Fernando Meirelles, após ver que o trabalho fenomenal de Cidade de Deus e o de Ensaio Sobre a Cegueira não podem ser coincidências, passemos aos fatos. Em primeiro lugar, os membros da Federação ignoram o fato de que há um grupo de cegos no filme e no livro que mantêm sua humanidade. Aliás, eles se mostram mais humanos justamente porque perderam a visão e são claramente retratados como os “mocinhos” da história.

Mesmo que não houvesse isso, o que os membros de tal Federação querem alegar? Que, pelo fato de serem uma minoria ou serem desprivilegiados de alguma forma, eles não podem ser retratados de maneira negativa? Se é assim, o próximo passo será banir de toda e qualquer obra cinematográfica e literária (sim, pois o livro existe há mais de 10 anos, fato que a tal Federação parece ignorar) personagens de minorias com características negativas: não será mais permitido haver negros traficantes, gays assassinos, ladrões pobres, mulheres frágeis e incapazes. Todas as minorias terão que ser retratadas apenas como os heróis, personagens perfeitos e infalíveis. Saibam desde que já que os “bandidos” serão sempre homens, brancos, de boa condição financeira, heterossexuais, sem nenhuma deficiência física, não judeus (afinal, eles já foram tão perseguidos também).

O assassino de um braço só de O Fugitivo? Esqueçam. Deficientes não podem ser assassinos. Joguem no lixo O Silêncio dos Inocentes e um dos personagens mais brilhantes e marcantes do cinema, Hannibal Lecter, ou alguma federação GLBT pode implicar. Incinerem o próprio Cidade de Deus, cheio de negros pobres ladrões, traficantes e assassinos (Fernando Meirelles deve mesmo odiar as minorias).

Quanto à alegação de que os cegos são retratados como pessoas desorientadas que não sabem se virar sozinhas, eu pergunto: o que deveria se esperar de pessoas que perdem a visão de repente, vítimas de uma epidemia inexplicável? Ainda mais quando todos ao seu redor começam a cegar também. Os “cegos da vida real”, mesmo quando desenvolvem habilidades para se virar sozinhos, acabam precisando de ajuda para uma coisa ou outra. Sempre vejo pessoas ajudando cegos a atravessar a rua, a entrar no metrô e sair dele. E não vejo nenhum problema nisso. Sei que a minha posição como alguém de saúde perfeita é muito confortável, mas sempre achei que a maior prova de humildade é saber reconhecer quando se precisa de ajuda. A maior soberba é achar que você não precisa da ajuda de ninguém, mesmo quando não se tem nenhuma deficiência.

Já fui contra o politicamente correto aqui neste blog várias vezes, mas sempre em tom de brincadeira, falando de como programas humorísticos eram mais livres e escrachados quando não reinava o guia de bons modos em relação aos sentimentos de minorias. Mas ver que querem levar o politicamente correto à última instância sobre obras artísticas me deixa profundamente preocupado com o futuro da liberdade criativa, do pensamento artístico, da liberdade de expressão. Tal posição da Federação Nacional dos Cegos dos Estados Unidos me parece de uma visão extremamente obtusa, mesmo para cegos.

 *extraído de: http://www.omelete.com.br

!!!

Das duas, uma: ou eu sou uma das poucas criaturas com a devida preocupação quanto ao uso escorreito (tá bom, o escorreito foi só pra me mostrar) dos elementos da escrita ou eu tenho que arranjar mais o que fazer. Eu tenho uma angústia recorrente quanto ao uso exagerado do ponto de exclamação. Quando eu aprendi Português na Alfabetização com a tia Carminha (mentira, eu não tive uma professora de Português chamada Carminha – tive uma de Inglês, que, por sinal, é uma lenda no meu colégio –, mas é que Carminha é tão nome de professora de Alfabetização), me ensinaram que o ponto de exclamação serve pra dar ênfase a uma frase, pra mostrar que você está praticamente gritando aquilo. Aí eu vejo neguinho usando exclamação até pra escrever as horas e fico preocupado com o futuro do ponto final. É que a banalização do uso da exclamação chegou a tal ponto (não o de exclamação, ponto mesmo, tipo momento) que o ponto final (sim, o da pontuação) está perdendo espaço, sumindo das frases, orações e períodos (você se lembra da diferença? Chama o Pasquale). Exagero? Podem ver. Dêem uma olhada na sua página de recados do Orkut. O ponto de exclamação reina absoluto, até nas frases mais feijão-com-arroz. Como diria minha amiga Lucy, banalizou, banalizou, virou Brasil! (viram? Eu usei uma exclamação aqui para demonstrar que essa é uma frase com ênfase, uma frase cheia de indignação)

Fora que eu aprendi que só se pode usar no máximo 3 exclamações juntas. Mas neguinho, não satisfeito em colocar exclamação até em receita de bolo da vovó, ainda tasca umas 8 exclamações juntas, isso quando não precedidas de uma vogal estendida, tipo: Que sumpimpaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!! NÃO DÁ!!! (reparem no número de exclamações utilizadas: 3) Vogal estendida com excesso de exclamação é o cúmulo da miguxidade! Mas não voltemos ao tema da vogal estendida, isso já foi assunto em outro tópico. Atenhamo-nos (eita que agora até eu me assustei!) apenas ao problema da exclamação, ponto. (trocadilho escrito, sacaram? Hã? Hã?!)

Será que eu tô ficando doido de me preocupar com isso? O que pensaria Machado de Assis, se não tivesse morrido há 100 anos? Ai, meu Deus! Eu preciso de um terapeuta que atenda na Academia Brasileira de Letras!

 

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